Natal: festa do encontro

Acontecem também antes do Natal, houve muitos encontros nas empresas, escolas e grupos diversos. Muitas pessoas mobilizaram-se em iniciativas culturais ou de solidariedade, promovendo o “Natal das crianças”, dos pobres, dos velhinhos, dos presidiários… E nas igrejas, encontros para rezar, ensaiar e preparar-se para as celebrações natalinas. Quantos encontros em família! Uma força irresistível leva a se encontrar e comemorar juntos: não dá para festejar o Natal sozinhos: seria um triste Natal…

outros encontros, bem menos místicos: nos Shoppings ou na Rua 25 de Março, na fila para pagar, no Ibirapuera, para a “Árvore”, nas avenidas, parados no trânsito, nas rodoviárias e aeroportos, de mala na mão, para encontrar os parentes lá longe…

O Natal é mesmo a festa dos encontros. Um fenômeno tipicamente humano; afinal, o homem é sociável e, geralmente, gosta de se encontrar para festejar momentos marcantes em sua vida. Verdade. Mas que “momento marcante” é esse, o Natal? Por que motivo, tantos e tão diversos encontros?

É inegável que no Natal a febre dos encontros é contagiante! As motivações podem ser muitas, mas desejo falar do motivo de fundo, que deu origem a toda essa vontade de encontrar-se no Natal. O homem traz dentro de si um enorme desejo de superação e de ir além de seus limites.

A conquista de novos espaços geográficos, científicos, astronômicos, cibernéticos, culturais, éticos é apenas um sinal disso. Onde ele quer chegar?  Desde o princípio, ele foi tentado de ser seu deus: “sereis como deuses” – foi esta a grande ambição de Adão e Eva, enganados pela serpente tentadora no paraíso. Não deu certo e se viram cercados de limites e fragilidades.

Mas o desejo humano de alcançar Deus permaneceu inalterado e, só no encontro com Ele, o coração inquieto do homem sossega: “nosso coração, Senhor, não descansa até que não repouse em ti” (S.Agostinho). No nascimento de Jesus Cristo, Deus veio ao encontro do homem, de uma maneira inimaginável. O Filho de Deus se fez homem, veio ser um de nós, sem deixar de ser o que foi desde sempre.

No nascimento de Jesus, comemorado no Natal, aconteceu o grande encontro. Por si só, o homem não ultrapassa o limite do humano: foi Deus quem lhe estendeu a mão e veio ao seu encontro. No Filho, enviado ao mundo, Deus uniu a si a humanidade e lhe deu a possibilidade de realizar seu sonho. E quem deseja encontrar Deus, já não precisa mais percorrer caminhos de incerteza, como a caminhar no escuro. Pode aproximar-se de Jesus, “rosto humano de Deus e rosto divino do homem”.

O nascimento de Jesus, desde logo, foi suscitando encontros: os pastores dos campos de Belém acorreram, curiosos, para ver o recém-nascido; os “reis magos”, vindos de longe, prostraram-se diante dele e o homenageiam com seus presentes… Também os que se sentiram incomodados com esse menino mobilizaram-se e promoveram encontros destruidores de vidas inocentes… A vida inteira de Jesus foi feita de encontros salvadores e irradiadores dessa nova presença de Deus entre os homens.

E o Natal nunca mais deixou de ser a festa do encontro. Que seja assim também em 2014! Bons encontros, feliz Natal!

Artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo, Edição de 25 de dezembro de 2014

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo